Alquimia: quinto procedimento - Mortificatio

Para se chegar a mortificatio é preciso um certo nível de expansão da consciência.



Os primeiros quatro procedimentos - calcinatio, solutio, coagulatio e sublimatio - acontecem na vida de todos o tempo todo e estão entrelaçados, ou seja, podem acontecer todos ao mesmo tempo,  ou dois, ou três.  Para que ocorra mortificatio é preciso primeiro estar 100% aterrado,  seguindo o procedimento coagulatio - só uma semente bem aterrada na terra consegue germinar. A essa altura o ego já compreendeu que precisa refinar-se através da moagem e passa por esse processo com alegria.

Ao longo da existência criamos historicamente uma espécie de banco de crédito e débito de acordo com nossas escolhas e ações. É importante lembrar que durante toda a existência do ser o Todo derrama amor e oportuniza as melhores condições para cada indivíduo de acordo com suas necessidades, porém o ego nem sempre permite que isso seja percebido, buscando manter o foco em outros interesses ou nas perspectivas negativas, aumentando seu banco de débito, gerando calcinatio.

Em alguns períodos todo ser passa por situações difíceis e não raras vezes se pergunta porquê isto está acontecendo, resistindo ao que considera uma injustiça, se revoltando contra o Todo. A visão do ego o leva a pensar que está fazendo tudo certo, sem compreender que há inúmeras variáveis que podem levar a determinadas situações, inclusive o banco de débitos de existências passadas. O mais comum é que as pessoas resistam aos problemas lutando, se debatendo para resolvê-los, fazendo com que um  problema-semente torne-se um problema-árvore imenso, ao invés de aceitar a realidade  e soltar -  que por sua vez não significa deixar que o Todo resolva tudo, abrindo mão de sua responsabilidade,  e sim olhando os problemas de frente e  buscando gerar ações criativas desfocadas do ego, sem angústia ou culpa, através da  coagulatio, sublimatio e da solutio.

De acordo com a visão quântica a consciência sofre evoluções desde que começa a existir, uma vez que consciência é energia. Essa energia evolui em forma de matéria ao longo do tempo, por exemplo, pode começar como uma pedra, evoluir para um animal, depois para forma humana e assim sucessivamente. Portanto o banco de débitos está sendo gerado desde o início da existência. Outro exemplo é o de que no reino animal podemos ter dentro da mesma espécie animais que matam por instinto de sobrevivência para se alimentar, porém sem crueldade, e outros de mesma constituição que matam com requintes de crueldade. Portanto ambos, embora sejam do mesmo reino, terão bancos de débitos diferentes. Compreender esse contexto é fundamental para que o ser entenda que nem sempre os seus problemas atuais são reflexo somente de erros da vida atual e sim, podem ilustrar os condicionamentos gerados ao longo da existência a serem transcendidos através do amor incondicional.

Enquanto se resiste a perceber a realidade os mesmos problemas se repetem indefinidamente em contextos diferentes. A partir do momento em que o ser percebe,  através da calcinatio, que seu ponto de vista não está surtindo o efeito positivo e efetivo, então é possível passar para os próximos procedimentos alquímicos. A  mortificatio  significa amortizar o banco de débitos gerados sendo possível através do trabalhar, ajudar e estudar continuamente. É preciso que se atue nesse sentido dentro do limite da capacidade de cada um, sem o apego ao mundo ou às convicções equivocadas do ego. Para tanto é preciso significativa dose de lucidez, humildade  e responsabilidade consigo, agir com tolerância e boa vontade. Para isso não é necessário grandes feitos, e sim realizar dentro do que é possível em seu campo de atuação.

Nada dentro do processo significa castigo ou injustiça,  pois a carga de débito é gerada pelo próprio ser através do livre-arbítrio,  E durante todo o processo o Todo está oferecendo oportunidades para se enxergar a realidade de uma forma diferente, derramando amor sobre o ser. Amor é luz enviada através do bem querer, de oração e de intenção por quem nos ama incondicionalmente. Mesmo pessoas consideradas psicopatas são amadas por seus pais, por exemplo. Portanto compreender a mortificatio  não é motivo para desmotivação ou culpa, ao contrário, é o caminho para  adiantar a resolução.

Há dois tipos de mortificatio: pode-se optar por ela para amortizar os débitos gerados ou para criar um crédito na existência. O estudo é importante para atuar na expansão da consciência e para saber como usar o amor corretamente,  pois há quem possa abusar do amor incondicional, uma vez que estamos lidando com  egos. Quanto mais consciente o ser torna-se mais compreende a necessidade da mortificatio, e a compreende com alegria,  como uma oportunidade para crescer e amortizar seu débito. Se nesse processo houver raiva, amargura, rancor, revolta contra Todo, ou puro interesse pessoal - amortizar só para ter tudo o que quer -  não haverá amortização, pois o sentimento que respalda o trabalhar, estudar e ajudar não será o amor.

Alguns pontos merecem destaque: a pessoa de posse da compreensão da mortificatio  passa a enxergar o mundo e agir de forma diferente dos demais, o que pode causar julgamentos e repreensões. Outro ponto é o estranhamento do ego, que por medo de perder seu domínio sobre o ser colocará a motificatio como algo absurdo a ser repelido a qualquer Custo. Outra perspectiva é a de que devemos ajudar mesmo aqueles que foram injustos conosco - estamos falando de amor incondicional. Porém mortificatio não é gostar de sofrer, é fazer o bem com alegria sempre, não importando a quem. Não é válida sobre a perspectiva e que o sofrimento irá limpar seu débito,  pois isso não é amor em si mesmo.

Embora possa parecer que tudo parece ser maldade do Todo, considerando a perspectiva de inúmeras existências, o que se paga em débito é muito pouco e suave, pois quando nascemos não nos lembramos, se for o caso, das atrocidades que cometemos anteriormente pois viveríamos em sofrimento com vergonha e culpa, tampouco sentimos o sofrimento que porventura possamos ter causado a outrem. Por exemplo, como seria o pagamento de um débito de um torturador ou assassino, se ele sentisse o que fez cada um sofrer? Se tivesse sido responsável por dizimar populações inteiras? É algo a se pensar.

Concluindo, através de trabalhar, estudar e ajudar, optando fazê-los com amor e alegria, estamos a praticar mortificatio. A consciência não desaparece nunca, somente muda de forma, não há como fugir disso, e quanto antes nos dispomos a limpar débitos e elevar créditos, tanto melhor.