Aspectos da subjetividade

A grosso modo de um conceito bem mais amplo, subjetividade é o que a pessoa é, seus dons, gostos e habilidades, características pessoais. É como se cada um seja um território de si mesmo e precise dessas referências para se sentir bem. O sequestro da subjetividade acontece quando o outro invade - muitas vezes de forma sutil e com ou sem o nosso consentimento inconsciente - nosso território pessoal, toma-o para si e passamos e viver como se já não tivéssemos o domínio sobre o que somos.



Geralmente o sequestro acontece de maneira gradual e quase imperceptível e atinge todos os campos de relacionamentos: homem/mulher, pais/filhos, amigos, patrão/funcionários...  o ser humano tem uma identidade pessoal, única, a qual precisa estar ligado para viver com a sensação de alegria e plenitude. Quando essa identidade é transformada, são retirados seus elementos naturais e colocados outros que fazem parte da identidade do outro, o indivíduo sofre com uma perda de pertença sobre o que é e passa a viver em estado de solidão, medo e negação de si mesmo.

Usa-se o exemplo do sequestro físico: o sequestrador retira a vítima do seu ambiente, privando-a de seus elementos de identidade; num primeiro momento a vítima sofre com extremo sofrimento e solidão; aos poucos começa a se acostumar com o ambiente e até com o sequestrador; o medo é um elemento de ligação, pois cria-se uma dependência pelo outro para garantir sua sobrevivência, uma vez que seus elementos de identidade foram extirpados; em caso de libertação, a vítima sente um misto de alívio, culpa (por sentir alívio) e medo (por não saber como recomeçar sem os novos elementos de identidade criados pelo sequestrador). 

No sequestro da subjetividade acontece o mesmo na esfera psicológica de uma forma até mais cruel, pois a intenção não é tão explícita como no exemplo acima e o sequestrador reveste-se de uma couraça de bondade e boa vontade - inclusive muitos sequestradores de subjetividade nem se dão conta de que o são por trazerem intrínsecas as tendências ao sequestro como se fosse um processo natural o outro "dançar conforme sua música". Isso explica a manutenção de relacionamentos que não trazem felicidade, como por exemplo, de uma pessoa que sofre violência doméstica - física ou psicológica - e continua se submetendo à isso sem conseguir reagir e muitas vezes, vendo-se como merecedora da situação. Nesse processo é muito comum o uso do arrependimento (me desculpe, eu vou mudar, não farei mais) e/ou a inversão de culpa (você é ruim, egoísta, ingrato, não vivo sem você) como meio de manter o sequestro, o que faz parte do jogo psicológico do sequestrador. 

Por esses motivos é tão difícil para a pessoa se resgatar - está calcada na identidade do outro e privada de sua identidade, muitas vezes esquecida ou tão distante, é natural que carregue a sensação de que que não conseguirá sobreviver sem a identidade que lhe foi imposta. 

Delimitar nosso território pessoal e resgatar nossa identidade leva tempo e muitas vezes precisa de estudo e/ou apoio psicológico pois acontece numa esfera profunda. Essa delimitação, taxada como egoísmo, na verdade é o cultivo do respeito próprio, pois só pode se doar e compartilhar aquele que tem sobretudo domínio sobre si mesmo, caso contrário, fica à mercê dos desmandos do sequestrador. Muitas neuroses nascem do sequestro da subjetividade.

Há uns 18 anos sofri a mais contundente experiência de sequestro de subjetividade. Hoje, conhecendo melhor o assunto, percebo que o apoio psicológico trabalhou no sentido de resgatar minha subjetividade para me libertar desse cativeiro emocional invisível, substituindo o sentimento de sobrevivência pelo sentimento de vida. Certamente um relacionamento saudável é aquele onde há troca (e não unilateralidade) de empatia, respeito e incentivo em relação à subjetividade do outro.

Merecem atenção pessoas que:
  • Só aceitam ser seu amigo se for "o único melhor amigo" ou não aceitam outras pessoas no grupo que não passem por sua aprovação;
  • Chefias que não ouvem a opinião dos funcionários ou impõe horários desumanos de trabalho;
  • Relacionamentos que usam imposição (através de ameaças ou rejeição) ou negociação o tempo todo (só faço isso se você fizer aquilo);
  • Pessoas do tipo "você não vai conseguir sem  mim";
  • Pais que só aprovam as escolhas dos filhos baseadas nas próprias;
  • Quem corriqueiramente ridiculariza ou diminui o outro - pode estar fazendo isso com você sem que perceba;
  • Ampliam as linhas de expectativa ou exigências quando você parece alcançá-las;
  • Usam amor, liderança ou amizade como meio ou desculpa para manutenção do sofrimento.